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quarta-feira, 8 de abril de 2009

Evolucionismo e criacionismo no século 21

Credibilidade da teoria da evolução biológica é baixa entre universitários brasileiros, mostra artigo
Embora o evolucionismo darwiniano, que está completando 150 anos, seja tido como uma das mais relevantes teorias da história da ciência, organizações de cunho religioso vêm tentando incluir no currículo escolar a concepção criacionista – descrita na Bíblia – da origem da Terra e da vida. Esse movimento está presente em vários países, inclusive no Brasil, onde, mesmo entre estudantes universitários, a credibilidade da teoria da evolução biológica, e mesmo de outras realizações científicas, ainda é baixa. Foi o que revelou uma pesquisa realizada com alunos da Universidade Estadual de Londrina, no Paraná. A ideia da evolução biológica provocou uma mudança radical na maneira como enxergamos a natureza e a nós mesmos. Após o surgimento dessa ideia, a semelhança entre espécies distintas passou a ser explicada pelo fato de compartilharem ancestrais em comum. Da mesma forma, a diversidade genética dentro de uma espécie deixou de ser vista como um ‘defeito de fabricação’, tornando-se a matéria-prima da evolução. E, sobretudo, a evolução de caracteres adaptativos – desde a melanina que determina a cor da nossa pele até a visão aguçada de uma águia – começou a ser interpretada como fruto da sobrevivência e da reprodução diferencial de indivíduos geneticamente distintos. Entretanto, no momento em que se comemoram os 150 anos da publicação do livro A origem das espécies, do naturalista inglês Charles Darwin (1809-1882), um dos autores da teoria da evolução das espécies pela seleção natural, o debate criacionismo versus evolucionismo parece não ter arrefecido. Na verdade, em diferentes países (em especial os EUA), um movimento de cunho fortemente religioso tem, nos últimos anos, tentado impor ao sistema público de ensino uma visão religiosa da origem e evolução da vida. De modo simplificado, podemos dizer que esse movimento criacionista envolve grupos religiosos radicais que rejeitam a teoria da evolução biológica em favor de um criador sobrenatural, tendo a Bíblia como única fonte de indícios para explicar essa concepção. Entretanto, é preciso destacar que a rejeição à evolução biológica pode partir de grupos que não têm, necessariamente, uma base cristã – como o Hare Krishna. Nesse cenário, destaca-se o papel de algumas organizações criacionistas norte-americanas, como o Instituto para a Pesquisa da Criação (The Institute for Creation Research – ICR) e o Centro para Ciências e Cultura do Instituto Discovery (Discovery Institute’s Center for Science and Culture). Essas instituições pronunciam-se de forma mais incisiva, muitas vezes trazendo à mídia questões polêmicas, como a de que a evolução é uma teoria em crise inclusive na comunidade científica, ou a de que ela carece de provas experimentais, ou a de que os próprios evolucionistas não chegam a um consenso sobre a evolução. Por esse caminho ardiloso, tentam justificar o ensino de outras teorias, além da evolução biológica, como forma de incentivar o debate e o senso crítico dos alunos. Com essa estratégia, os criacionistas têm conseguido avanços significativos dentro do sistema público de ensino em alguns estados daquele país. Formação inadequada e desconhecimento da lei Esse sucesso pode ser creditado, ao menos em parte, a alguns fatores intimamente relacionados. Um deles é a formação insuficiente ou inadequada de muitos professores a respeito da teoria evolutiva (muitos não compreendem o que significa ‘teoria científica’, ou seja, não sabem como a ciência é feita). Outro é o desconhecimento das questões legais referentes ao ensino do criacionismo nas escolas públicas dos Estados Unidos (os professores tornam-se, assim, vulneráveis às pressões de pais, estudantes, diretores de escolas e comitês de ensino). Por fim, e não menos importante, as próprias convicções religiosas de alguns professores os levam a ser criacionistas. Seguindo essa estratégia e liderados pelo professor de direito Philip Johnson, da Universidade de Berkeley, os criacionistas norte-americanos fundaram, no início dos anos 1990, um movimento denominado Desenho Inteligente (ID, de Intelligent Design). O principal objetivo desse movimento é dar uma roupagem científica a seus argumentos, para transformar o criacionismo em uma teoria respeitável e, de preferência, no meio desse processo, desacreditar a teoria da evolução. Eles esperam, desse modo, criar um sentimento geral de que o criacionismo merece o mesmo tratamento do evolucionismo, inclusive no sistema público de ensino. Pode-se dizer que o maior êxito dos criacionistas norte-americanos não tem sido obtido dentro dos Estados Unidos, mas sim na repercussão do movimento mundo afora, influenciando outros países, inclusive o Brasil. Uma pesquisa realizada em 34 países e publicada em agosto de 2006 pela revista cientifica Science mostra que, na Islândia, na Dinamarca, na Suécia e na França, mais de 80% dos adultos aceitam como verdadeira a teoria da evolução, percentual que fica em 78% no Japão. Nos Estados Unidos, porém, somente cerca de 40% dos adultos acham essa teoria válida – os outros 60% não têm certeza sobre sua veracidade ou acreditam que é falsa. Já em países como Turquia, Bulgária, Grécia, Romênia, Áustria, Polônia, Suíça e outros, mais de 40% da população acham que a teoria da evolução é falsa ou não têm certeza sobre sua validade. O debate criacionismo/evolução, portanto, é complexo e parece estar longe de um fim. A discussão, porém, é absolutamente necessária, já que pode determinar o futuro educacional de nossa própria sociedade.
Texto:
Rogério F. de Souza Marcelo de Carvalho Departamento de Biologia Geral, Centro de Ciências Biológicas, Universidade Estadual de Londrina (UEL)
Tiemi Matsuo Departamento de Estatística e Matemática Aplicada, Centro de Ciências Exatas, UEL
Dimas A. M. Zaia Departamento de Química (Laboratório de Química Prebiótica), Centro de Ciências Exatas, UEL

O Brasil visto por Darwin

Historiador da ciência resgata passagem do naturalista pelo Rio e pelo Nordeste nos anos 1830
A efeméride é a ocasião de relembrar a passagem dos dois naturalistas pelo Brasil e a contribuição das observações feitas por ambos em nosso país para a formulação da teoria que mudou a biologia. A passagem de Darwin pelo Brasil foi o foco da conferência do físico e historiador da ciência Ildeu de Castro Moreira na reunião anual da SBPC. Moreira, que dirige o Departamento de Popularização e Difusão da Ciência do Ministério da Ciência e Tecnologia, está tentando reconstituir os diferentes passos da passagem do naturalista inglês pelo país e está envolvido na organização de vários eventos comemorativos dos 150 anos da teoria da seleção natural. Darwin passou pelo Brasil a bordo do Beagle, navio encarregado de dar a volta ao mundo fazendo medições importantes para a marinha britânica. Recém-formado, aos 24 anos, Darwin era o naturalista de bordo, incumbido de fazer observações geológicas e biológicas durante a expedição. Na viagem, que durou quase cinco anos, o inglês coletou material e fez observações que, mais tarde, o colocariam na trilha da seleção natural. Algumas das primeiras escalas do Beagle foram feitas na costa brasileira, em Fernando de Noronha, Salvador, Abrolhos e no Rio de Janeiro, onde Darwin passou quatro meses. “Darwin ficou hospedado em Botafogo, que era então um bairro nobre e tranqüilo, onde nobres e embaixadores tinham sítios”, conta Moreira. “Estamos tentando identificar a localização exata da casa em que ele ficou, provavelmente na atual rua São Clemente.” Em 1836, após completar a circunavegação, o Beagle fez novas escalas no Brasil, em Salvador e Recife, em seu caminho rumo à Inglaterra. A deslumbrante natureza foi o que mais chamou a atenção de Darwin em sua passagem pelo Brasil. Seu diário de bordo e as notas de viagem reunidas anos mais tarde em livro (A viagem do Beagle, disponível em português) refletem o encanto do jovem inglês com a luxuriante paisagem tropical. “Delícia é um termo fraco para exprimir os sentimentos de um naturalista que, pela primeira vez, se viu perambulando por uma floresta brasileira”, escreveu Darwin sobre sua passagem por Salvador. Seu relato é repleto de adjetivos deslumbrados que exaltavam “a exuberância geral da vegetação”, “a elegância da grama”, “a beleza das flores” ou “o verde lustroso da folhagem”. Humanismo e preconceito
As notas de viagem de Darwin refletem também sua visão sobre a sociedade brasileira. Em várias passagens, elas manifestam o humanismo do naturalista, que recrimina reiteradas vezes a escravidão contemplada por ele no país. Mas Ildeu Moreira lembra também que as observações do inglês denotam certo preconceito em algumas passagens. Sua impaciência com a burocracia brasileira, por exemplo, ou sua decepção com os modos rudes com que foi tratado por certos habitantes locais motivaram comentários pouco simpáticos à população brasileira em suas anotações. “Darwin fez algumas generalizações sobre os brasileiros e às vezes julgava as pessoas pela sua aparência ou pela forma como se vestiam”, diz Moreira. O historiador da ciência chama a atenção também para outro aspecto interessante que se sobressai das anotações feitas por Darwin em sua passagem pelo Brasil. Esses relatos mostram como o inglês foi ajudado por habitantes locais em suas incursões pela mata e nas expedições para coleta de material biológico. Moreira lembra que esses guias, geralmente omitidos nos relatos científicos dos naturalistas, aparecem mais claramente nos relatos de viagem, escritos em estilo mais solto. “Os índios, escravos e crianças que ajudavam os naturalistas do século 19 tinham um conhecimento que, depois de catalogado e registrado, foi incorporado ao acervo da ciência mundial”, afirma Moreira. “Isso não representa um demérito para esses cientistas, mas nada teria sido feito sem a ajuda desses guias. Não podemos perder a perspectiva de que a ciência dependia do conhecimento das populações nativas.”

Bernardo Esteves
Ciência Hoje On-line 16/07/2008

Na trilha de Darwin

Expedição refaz trajeto percorrido pelo naturalista inglês no Rio de Janeiro em 1832

Mais de 170 anos depois, a história da passagem de Charles Darwin (1809-1882) pelo Rio de Janeiro está sendo resgatada. Uma expedição acaba de refazer o trajeto percorrido pelo naturalista inglês da capital em direção ao norte do estado, onde ele teve seu primeiro contato com a incrível diversidade da floresta tropical e viu de perto as condições de vida dos escravos. As observações feitas pelo cientista na viagem contribuíram para a elaboração, anos mais tarde, da teoria da evolução pela seleção natural.
Durante todo o percurso, Darwin esteve bem representado: seu tataraneto, o escritor e conservacionista Randal Keynes, veio de Londres especialmente para a expedição. Keynes pôde ver o que restou da paisagem descrita por Darwin no século 19, conhecer os locais onde ele se hospedou – alguns ainda preservados –, provar comidas típicas da época e encontrar descendentes daqueles que viviam na região quando seu tataravô passou por lá. “Quando Darwin deixou o Brasil, ele sabia que provavelmente nunca mais voltaria. Sinto agora que posso dar a ele essa experiência novamente”, disse Keynes. A expedição Caminhos de Darwin partiu do Jardim Botânico do Rio de Janeiro no dia 26 de novembro. De lá, o grupo de cerca de 50 pessoas, formado por pesquisadores, professores, estudantes, jornalistas e divulgadores de ciência, passou por outros 11 municípios em quatro dias: Maricá, Saquarema, Araruama, São Pedro d’Aldeia, Cabo Frio, Barra de São João, Macaé, Conceição de Macabu, Rio Bonito, Itaboraí e Niterói. Essas cidades localizam-se hoje no caminho percorrido a cavalo por Darwin durante 18 dias em 1832. Roteiro turístico e científico Em cada município visitado pela expedição, foi inaugurada uma placa comemorativa que mostra o mapa do estado com o trajeto de Darwin e anotações dele sobre o lugar. A leitura de trechos do diário do naturalista, feita pelo ator Carlos Palma caracterizado como Darwin, remetia o público ao século 19. A intenção dos organizadores é criar um roteiro turístico, cultural, educacional e científico, que possa ajudar as pessoas a aprender mais sobre Darwin, a teoria da evolução e a história do Brasil, ressaltando a importância da preservação do patrimônio histórico e natural da região. Para mostrar o lugar privilegiado ocupado pela geologia nas observações de Darwin, foi organizada uma exposição – montada a cada parada da expedição – com rochas de todos os lugares por onde o naturalista passou, algumas delas descritas por ele. “Estamos contando a história da nossa terra, da nossa comunidade. É importante mostrar que contribuímos para um capítulo importante da história mundial”, ressaltou Ildeu de Castro Moreira, diretor do Departamento de Difusão e Popularização da Ciência do Ministério da Ciência e Tecnologia e um dos coordenadores da expedição. Mobilização popular No percurso, era possível perceber o engajamento da comunidade e das escolas no projeto. Os alunos se caracterizaram como Darwin e sua esposa, Emma, e apresentaram trabalhos e esquetes teatrais sobre o tema, entre outras manifestações culturais. Em vários momentos, a comitiva foi escoltada, seja por policiais, tropeiros e até motociclistas. “A expedição foi um sucesso em todos os sentidos; mas o mais importante foi o que ficou em cada comunidade”, avaliou Moreira.
Muito simpático, o tataraneto de Darwin foi tratado como celebridade e, incansável, tirou dezenas de fotos e deu vários autógrafos. Keynes ressaltou a importância do projeto Caminhos de Darwin para fortalecer a educação científica dos jovens e a preservação da natureza. Ele lembrou que Darwin considerava a educação a única forma de tornar as pessoas livres. E completou: “O ensino fora da sala de aula foi especialmente importante para Darwin. Ele nunca ficou preso em um laboratório. Seu laboratório foi o mundo vivo.” A figura de Darwin mostrada durante a expedição não foi apenas a do cientista que manteve sua curiosidade infantil e observava com atenção a diversidade de plantas e animais da floresta. Seu lado humanista também foi bastante lembrado. “Na escola, estudamos a teoria da evolução; aqui, descobrimos que há um Darwin preocupado com a questão social, com a escravidão e a educação”, afirmou Adryane Reis, aluna da Escola Sesc de Ensino Médio que acompanhou a expedição. Keynes espera que a experiência brasileira inspire a realização de expedições como essa nos outros países por onde Darwin passou durante sua viagem ao redor do mundo a bordo do navio Beagle. “Gostaria que outras pessoas tivessem a oportunidade de conhecer o trabalho de Darwin vivendo o que ele viveu.”

Thaís Fernandes
Ciência Hoje On-line 02/12/2008